quinta-feira, 21 de abril de 2011

Questões sobre o conto Uma vela para Dário

PORTUGUÊS E INTERPRETAÇÃO DE TEXTO
Uma Vela para Dário
Dalton Trevisan

Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.
Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.
Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.
Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.
A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.
Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las.
Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delícias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.
Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.
Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.
O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo — os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio, quando vivo, só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.
A última boca repetiu — Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto.
Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos. Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.
Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.

(Vinte Contos Menores. Record: Rio de Janeiro, 1979, p.2.)



1) O conto aborda:
(A) o comportamento solidário das pessoas com relação a quem elas não conhecem.
(B) a rapidez com que o homem é transformado em objeto.
(C) a demora do socorro médico prestado a um indigente.
(D) a descontração e a vivacidade dos habitantes de um bairro de uma cidade grande.

2) Qual a alternativa que expressa somente índices caracterizadores da classe social do personagem?
(A) Sentar no chão, usar gravata.
(B) Ser famoso, ter carteira com documentos.
(C) Usar alfinete de pérola na gravata, fumar cachimbo.
(D) Passar próximo a uma peixaria, portar guarda-chuva.

3) A vela colocada ao lado do cadáver pelo menino de cor e descalço simboliza:
(A) que alguém reconhece a dignidade humana de Dario.
(B) que já estava escuro, sem iluminação.
(C) que naquele bairro faltava luz elétrica.
(D) que era necessário aquecer Dario.

4) De que trata o texto de Dalton Trevisan? O que o título do texto nos sugere?

5) Recupere alguns elementos dessa narrativa:
• Onde ocorrem os fatos narrados?
• Quando ocorrem?
• Quem é Dario? Descreva esse personagem a partir das informações do texto.
• Quem são os demais personagens da narrativa?
• Como esses personagens reagem ao drama de Dario?

6) Quando tem início o conflito da narrativa?

7) Que tipo de narrador temos nesse conto?

8) Leia e se possível escute a música “ De frente pra crime” de João Bosco e Aldir Blanc e responda: Qual é a semelhança entre esses discursos, que “sacodem” leitores e ouvintes. Justifique com elementos do texto.

9) Na letra da música podemos perceber a presença do eu-lírico. Em que momento aparece e quem supostamente é a representação deste eu.

De frente pro crime

Tá lá o corpo estendido no chão/ Em vez de um rosto uma foto de um gol/ Em vez de reza uma praga de alguém/ E um silêncio servindo de amém /O bar mais perto depressa lotou/ Malandro junto com trabalhador/ Um homem subiu na mesa do bar/ E fez discurso para vereador/
Veio camelô vender anel, cordão perfume barato/ E baiana pra fazer pastel e um bom churrasco de gato/ Quatro horas da manhã baixou o santo na porta bandeira/ E a moçada resolveu parar e então...
Tá lá o corpo estendido no chão/ Em vez de rosto uma foto de um gol/ Em vez de reza uma praga de alguém/ E um silêncio servindo de amém
Sem pressa foi cada um pro seu lado/ Pensando numa mulher ou num time/ Olhei o corpo no chão e fechei/ Minha janela de frente pro crime/
Veio camelô vender anel, cordão perfume barato/ E baiana pra fazer pastel e um bom churrasco de gato/ Quatro horas da manhã baixou o santo na porta-bandeira/ E a moçada resolveu parar e então...
Tá lá o corpo estendido no chão

10) Escreva uma Notícia baseada nos fatos apresentado na letra da música ou no conto, Dê uma manchete ao texto.

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